Cidades Resilientes, Cidadãos Inteligentes: Seminário no Rio de Janeiro promoveu a discussão do tema

O Rio de Janeiro foi cenário de uma experiência que já vem acontecendo na Holanda e em outros países europeus. Neste semestre, a Holanda está na presidência da União Europeia e o consulado tem presenteado os cariocas e fluminenses com algumas ações que geram a troca de experiências.

O seminário SMART CITIZENS, RESILIENT CITIES (“Cidades Resilientes, Cidadãos Inteligentes”) trouxe para a pauta a discussão de assuntos poucos conhecidos dos brasileiros, e principalmente o poder da palavra resiliente. O encontro entre gestores, diplomatas, curiosos e estudiosos de várias nacionalidades aconteceu no IED – Instituto Europeo di Design, localizado no antigo prédio do Cassino da Urca, na última segunda-feira, 16.

A criação do programa para este evento foi uma parceria do IED (BR) e da Waag Society (NL) e a colaboração do Consulado da Holanda no Rio de Janeiro e da Prefeitura do Rio.

O Consulado holandês e o Dutch Culture (NL) foram os financiadores e receberão contribuições adicionais do IED, do Olabi , da FGV-DAPP, da Swissnex, do British Council,  do Inovar Noruega e do Consulado Italiano.

 

O seminário

O objetivo de realizar este seminário foi de oferecer demonstrativo, através da troca de experiências e visões de vários países e cidades, da  necessidade do diálogo.  O empoderamento do cidadão é fundamental para dar-lhe as ferramentas necessárias e viabilizar a interação com gestores da área social, ambiental e, principalmente, política.  Essa é a base para um processo construtivo de tomada de decisão política de caráter inclusivo, que contribui para o desenvolvimento sustentável.

Representantes da Holanda, Brasil, Itália, Suíça e Portugal apresentaram a visão de seus países sobre a importância de cidadãos habilitados para a construção de cidades resilientes.

Na mensagem de boas vindas o consul-geral da Holanda, Arjen Uijterlinde, destacou a importância da Holanda está na presidência de União Europeia e usar esse momento para se conectar com o Rio: “ este é um tema abrangente e global. A cidade do Rio de Janeiro precisa aprender a lhe dar com a resiliência e o cidadão é fundamental nesse processo”, destacou o consul-geral.

Em seguida Han Peters, embaixador da Holanda no Brasil destacou o quanto a tecnologia é importante no processo e contou uma história para os presentes: “Há 30 anos comprei o meu primeiro computador e jogava xadrez, me lembro de que esperava 10 minutos para o reinicio da uma jogada. Hoje temos a tecnologia na palma das mãos e podemos nos tornar cidadãos inteligentes”, ressalta o embaixador.

Para Claudia Gintersdorfer, Ministra- Conselheira da UE para o Brasil, o tema escolhido é muito importante: “É um tema de inspiração que mostra que nem sempre o mais forte vence e o mais fraco perde. Vencem aqueles que se adaptam” e ainda completa “mudar os hábitos é um importante desafio para o futuro”. A União Europeia apoia a energia sustentável e a redução CO2 na Europa. Compromete-se também com a tecnologia compartilhada e uma internet de futuro com serviços e integração social a projetos inteligentes. No Brasil já surgem projetos inteligentes como os painéis solares em Porto Alegre, Rio de Janeiro e Sorocaba. Em 2017 novas cidades estarão no projeto. E no final alerta, principalmente o Brasil, pelas variações climáticas e a necessidade de se programar para o que poder acontecer nestas épocas de tempo ruim.

Para encerra a abertura Pedro Junqueira, do Centro de Operações do Rio de Janeiro, apontou que os movimentos climáticos na cidade carioca são um a preocupação. Destacou que o termo resiliente é novo e que surgiu na prefeitura entre 2013 e 2014. E colocou: “o comportamento das pessoas influência a resiliência e todos podem ajudar a todos”.

O seminário foi dividido em quatro painéis.

 

Primeiro Painel – Políticas

Foi apresentado pelo holandês Frank Kresin, Diretor de Pesquisa, Waag Society.

Pedro Junqueira voltou para apresentar o quanto a cidade do Rio de Janeiro está avançada na resiliência. A centralização das soluções facilita na rapidez para se resolver problemas urbanos. Sejam eles acidentes, falta de luz ou tubulação estourada, por exemplo. Lembrou que no começou houve uma resistência das empresas em trabalharem juntas para as soluções que depois de cinco anos e meio os resultados são positivos. “Hoje conseguimos monitorar a cidade inteira através dos avanços tecnológicos e das experiências com a logística da Copa de 2014”, conta Pedro. A resiliência é pensar no futuro das cidades. É preparar para as alterações climáticas, controlar a violência, organizar o caos do transito, o abastecimento de água e principalmente o empoderamento dos cidadãos. Estimular as alianças sociais e economia circular para um futuro melhor.

A próxima a ter a palavra foi Tina Billeter. A suíça é consultora de sustentabilidade e membro do serviço ambiental e proteção da saúde da cidade de Zurique. A consultora contou que a cidade de Zurique tem 500 mil habitantes, o que se pode comparar a Niterói, e segue um modelo completamente sustentável: “Há um monitoramento do ar, do som, da água quatro vezes ao ano”. Ela apresentou o projeto Sociedade 2000 Watts, a meta é realizar somente esse consumo de energia por pessoa até 2030, hoje cada pessoa consome em torno de 5000 watts. Tina acredita que a mudança sustentável é possível. “Devemos respeitar a sazonalidade dos alimentos e consumi-los na época correta”, ressalta. Podemos viver com menos coisas e compartilhar mais e concertar aquilo que se quebra e não jogar no lixo.

A experiência de Portugal foi compartilha por Catarina Selada, chefe do departamento de cidades na INTELI Innovation Centre. Em Portugal a maioria das prefeituras colabora com a resiliência e lideram os movimentos para o futuro. Catarina conta que: “Há cidades que usam seus espaços para testarem a resiliência e compartilham as experiências e resultados”. Os carros elétricos já são uma realidade e que possuem projetos em conjunto com a cidade de Curitiba, no sul do Brasil.

Frank Kresin retorna para apresentar um pouco da realidade sustentável de Amsterdã. O plano é que até 2020 é que a qualidade de vida fique bem melhor. A população começa a perceber a necessidade da reciclagem do lixo doméstico, a tentativa de diminuir a poluição e as estratégias coletivas.  Compartilhar ideias e soluções se tornou o foco: “Usamos os quatro “I”: Inovação, Inspiração, Interatividades e integração, têm dado muito certas”, conclui.

 

Segundo Painel – Cidades Resilientes

Luciana Nery abriu e moderou o segundo assunto do dia. Ela é gerente de resiliência do Centro de Operações do Rio.

O pernambucano Ricardo Ruiz tomou a palavra e apresentou o projeto que coordena chamado InCiti. O projeto tem como objetivo catalisar conhecimentos e conceber soluções colaborativas para constituir cidades inclusivas, sustentáveis e felizes. Entre os projetos se destacam: Cidades Sensitivas que discutem com a sociedade a utilização dos espaços públicos como locais de expressão, dinâmicas sociais e experimentação das políticas publicam. O desdobramento deste projeto se chama LabCeus – Laboratório das Cidades Sensitivas usando a tecnologias em espaços públicos.Os outros projetos são o Parque do Capibaribe, a Face Noturna da Cidade e Espaço Contra o

A mobilidade sustentável foi o assunto abordado por Clarisse Linke do Instituto de Transporte e Política de Desenvolvimento Brasil. Ela aponta os desafios da mobilidade, principalmente nas cidades da América Latina e da África. Os grandes deslocamentos nos centros urbanos de casa até o trabalho: “No Rio de Janeiro quando se chove boa parte das pessoas faltam ao trabalho, pois a logística ruim do transporte e as condições não permitem logos trajetos nesses dias. E a maioria não tem o dinheiro para o taxi, destaca”. E com isso cai a produtividade e a qualidade de vida.

Mark Van der Net, holandês , apresentou o projeto OSCity. Conectar as pessoas é o fundamental: “As cidades precisam ser menos técnicas e se construírem a partir do desejo das pessoas”, conta Mark. O uso da tecnologia e da redes sociais é importante e o mais fundamental é a convivência das pessoas.

O italiano Marco Contardi da FGV Projetos trouxe para a discussão como podemos nos transformar? E apontou pontod importantes: Qual seria o real papel do setor publico? Como compor setor publico e privado com a sociedade? A necessidade de uma governança. A necessidade do desempenho técnico dos habitantes e o surgimento dos novos mercados e modelos estratégicos. Todos estes pontos são responsáveis pela transformação do pensar e agir da sociedade e instituições publica e privadas.

 

 

Terceiro Painel – Cidades Inteligentes

O terceiro painel do dia começou com Pieter van Boheemen, holandês, Diretor da Waag Lab apresentando o tema Cidadãos Inteligentes. Pieter apresentou o resultado do workshop realizado na semana anterior com brasileiros. A utilização de condutores simples como balões a gás, brinquedos lúdicos e uma pouco de ciência e tecnologia se é possível medir a qualidade da água, som e ar. Segundo ele foi uma semana de muita diversão e aprendizado.

Gabriela Agustini diretora e fundadora do Olaby Makerspace no Rio de Janeiro defendeu a necessidade de se levar a tecnologia para todos e a diversidade: “Além, da tecnologia temos que dar valor a marcenaria e o artesanato. Assim criamos um espaço de inovação e comunidade”, aponta. O Brasil é um país de desigualdades e precisamos, cada vez mais, dialogar com a sociedade de forma mais simples e concluiu: “Cidade Inteligentes são aquelas feitas para todos os moradores”.

Pedalar é uma delícia e sustentável foi o que provou Chloe Dickson da Suíça e co-fundadora do Bemap. O dispositivo BeMap é uma lâmpada de bicicleta com GPS de rastreamento e sensores que medem a poluição ao longo de sua rota de ciclismo. Os ciclistas podem coletar dados sobre seus arredores, a fim de escolher o seu caminho para trabalhar de acordo com os valores de poluição. Esse dispositivo já vem sendo testado no Rio de Janeiro e São Paulo.

O brasileiro Ronaldo Lemos veio apresentar o projeto It’s Rio. Ronaldo aposta na democratização da tecnologia e assim nas mudanças dos cidadãos. Ele aposta para o futuro nos contratos inteligentes: Feitos entre as pessoas sem envolver órgãos oficiais. E assim vão surgir cada vez mais movimentos livres e menos burocráticos. Abrir oportunidades aos mais pobres de dialogarem mais e saberem os seus direitos. A necessidade da abertura das portas das universidades e instituições de ensino para a sociedade. A interatividade entre os cursos oferecidos e a troca de inovações e ideias entre todos os setores da sociedade.

Pieter van Boheemen concluiu esta etapa: “Ter atitude para uma boa comunicação é fundamental”

 

 

Quarto painel – Visionários

Fabio Palma, Diretor, IED – Istituto Europeo di Design, abriu o último painel do dia. Lembrando que com passar dos tempos os centros urbanos incharam e as pessoas começam a se deslocarem mais. Hoje a globalização nos permitiu essa interatividade: “ Se hoje temos pessoas de vários países nesta sala é graças a essa movimentação e interação”, apontou. Por outro lado precisamos olhar o futuro e pensarmos como agir para dias melhores.

 

Luisa Santiago, Diretora da Ellen MacArthur Foundation no Brasil, aposta na economia circular para o futuro: “O modelo econômico atual destruiu o planeta. Gerando poluição e o esgotamento das reservas naturais”, lembrou Luisa. A proposta é criar uma economia restaurativa, regenerativa e durável. Hoje o consumo aumentou e as pessoas vivem muito mais nas cidades do que no campo. A economia precisa funcionar de forma circular e assim trazer mais oportunidades para o futuro.

Os fatores históricos podem ser definitivos para o futuro. Washington Fajardo, presidente do Instituto do Patrimônio Mundial Rio mostrou o quanto é importante ser resiliente e um cidadão inteligente hoje, mas sem esquecer-se da história: “O melhor da cidade é a cidade que existe”, frase que sempre fala para todos. Ele contou que o Rio de Janeiro de alguma forma sempre foi resiliente. Foi aqui que se plantaram as sementes europeias no Jardim Botânico, na época do império. Sempre se experimentou e se inovou na cidade carioca. Entre 1928 e 1956 um grupo pensante formado por artesões, arquitetos e urbanistas criaram uma nova planejamento urbano para o pós-guerra. Aqui no Brasil o movimento foi liderado por Lúcio Costa que veio planejar a nova capital Brasília e a Barra da Tijuca no Rio de Janeiro. Washington lembra que:  “Manter prédios antigos é contar a história da cidade, para isso é necessário estimular essa preservação”. Um trabalho que faz com a prefeitura é sair pelo Centro do Rio com secretários e juntos fazem o mapeamento dos problemas e soluções. A ideia é buscar a manutenção dos locais e estabelecimentos históricos.

A energia solar é a solução da energia limpa para o futuro? Essa é a questão que Bruno Cecchettim, chefe de inovação da Enel Brasil apresentou com visão do futuro. A empresa está em 30 países no mundo buscando o sol como principal fonte sustentável. Projetos estão sendo testados: carros elétricos, bicicletas elétricas que foram doados para as prefeituras e a criação barcos elétricos. Todos logicamente sendo recarregados pela luz solar.

Frank Kresin retornou para apresentar mais uma visão da Waag Society. O Hacker sempre foi visto como a pessoa que está no mundo digital para destruir redes e roubar dados: “Hacker pode ser um pessoa do bem. Foram eles que criaram os computadores com o objetivo da democratização do acesso. Idealizaram o Linux, por exemplo”, devenda. O hacker pode ser o meio de inteligência coletiva e ser uma fonte de conhecimento. Qualquer pessoa pode se tornar um, desde que seja para o melhor da sociedade.

 

Conclusão:

Construir uma sociedade resiliente depende do envolvimento de todos os setores. A inovação e boas ideias são capazes de salvar o planeta da escassez de recursos naturais. Circular a economia e oferecer soluções simples tecnológicas ajuda democratizar o acesso à informação. Todos nós podemos nos tornar cidadãos inteligentes. Podemos viver mais com menos, é possível construir uma vida melhor e temos a obrigação de olhar para o futuro. E assim prevenir catástrofes mundiais, a violência, a fome, as destruição por efeitos da natureza e renovar o ar que respiramos. Podemos e devemos tudo realizar juntos se tivermos inspiração, inovação, integração e interatividade. Somos capazes se sermos mais resilientes e inteligentes.